PRP para epicondilite lateral (cotovelo de tenista): quando indicar, o que a ciência mostra e o que muda com a Resolução CFM 2.464/2026
Por Dr. Guilherme Noffs, ortopedista especialista em ombro e cotovelo, Medicina do Esporte (USP · UNIFESP · Hospital Israelita Einstein) | CRM-SP 144.245 | RQE 81212 | @guilhermenoffs.ortopedista
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Atualizado em 11 de setembro de 2026 · Leitura: 14 minutos · Conteúdo revisado pelo autor com base em ensaios clínicos e metanálises
Figura 1. Aplicação de PRP no cotovelo guiada por ultrassom: a imagem em tempo real permite levar a agulha à área doente do tendão.
O PRP (plasma rico em plaquetas) é uma injeção preparada com o sangue do próprio paciente e usada como tratamento adjuvante da epicondilite lateral (cotovelo de tenista) quando a dor persiste. Comparado ao corticoide, age mais devagar, mas resulta em menos dor e melhor função após 3 a 6 meses. Desde julho de 2026, a Resolução CFM nº 2.464/2026 regulamenta o uso do PRP nessa indicação.
Pontos-chave deste artigo
A epicondilite lateral crônica é, principalmente, uma degeneração do tendão (tendinose), não apenas uma inflamação.
O PRP não é primeira linha: entra após tratamento inicial com fisioterapia não resolver.
O efeito é progressivo: os ganhos mais claros aparecem após 2 meses, e não nas primeiras semanas.
O corticoide alivia mais rápido, mas está associado a mais recidiva.
PRP sem reabilitação tende a entregar menos: fortalecimento e controle de carga continuam essenciais.
Se você já fez fisioterapia, tomou anti-inflamatório, talvez até recebeu uma infiltração com corticoide, e a dor na parte de fora do cotovelo voltou, é provável que alguém já tenha falado em PRP.
Na consulta, a dúvida costuma vir assim: "PRP funciona?".
Eu prefiro responder com outras perguntas:
para quem, em que momento e com que expectativa.
O Plasma Rico em Plaquetas (PRP) para epicondilite lateral utiliza componentes do próprio sangue do paciente com o objetivo de estimular os processos biológicos envolvidos no reparo do tendão. Pode ser considerado em casos de dor persistente, quando a fisioterapia e outras medidas conservadoras não trouxeram a melhora esperada.
Neste guia, explico como o PRP atua no tendão, quando pode ser indicado, o que os principais estudos mostram (inclusive os que não encontraram benefício) e o que muda na prática com a regulamentação do Conselho Federal de Medicina.
O que é a epicondilite lateral (cotovelo de tenista)?
A epicondilite lateral, conhecida como cotovelo de tenista, é uma tendinopatia dos tendões extensores do punho na face externa do cotovelo, que se inserem no epicôndilo lateral do úmero. A estrutura mais acometida é a origem do tendão extensor radial curto do carpo (ERCC).
Apesar do nome, a maioria dos pacientes não joga tênis. Movimentos repetitivos, trabalho manual, uso intenso de mouse e teclado, musculação com pegada forte e atividades que exigem força de punho e antebraço também contribuem. Em estudo populacional finlandês com 4.783 adultos, a prevalência foi de
1,3%, com pico entre
45 e 54 anos (Shiri et al., 2006).
Por que "epicondilite" nem sempre é inflamação
Nos quadros persistentes, o que predomina no tendão são alterações degenerativas: fibras de colágeno desorganizadas, microrroturas, formação de vasos anômalos (neovasos) e fibras nervosas associadas à dor, com pouca ou nenhuma célula inflamatória.
Esse padrão foi descrito por Kraushaar e Nirschl (1999) como hiperplasia angiofibroblástica, e é por isso que muitos especialistas preferem o termo tendinopatia ou tendinose.
Essa característica explica por que tratar a epicondilite crônica exige mais do que controlar a dor: é preciso
recuperar progressivamente o tendão, sua capacidade de carga e sua função.
Tabela 1. Sintomas típicos da epicondilite lateral
| Sintoma | Como costuma aparecer no dia a dia |
|---|---|
| Dor na face externa do cotovelo | Localizada no epicôndilo lateral, pode irradiar para o antebraço |
| Dor ao segurar ou apertar | Pegar xícara, garrafa, sacola, apertar a mão de alguém |
| Dor ao estender o punho contra resistência | Levantar objetos com a palma para baixo, torcer pano, girar maçaneta |
| Perda de força de preensão | Sensação de que o objeto "escapa" da mão |
| Rigidez ao acordar ou após repouso | Melhora parcial com o movimento, piora com o uso repetitivo |
Como é feito o diagnóstico?
O ultrassom ajuda a confirmar o diagnóstico e a mapear a lesão: espessamento e hipoecogenicidade do tendão, neovascularização ao Doppler, rupturas parciais e calcificações.
A ressonância magnética é o exame de escolha para maior detalhamento e caracterização do tamanho da lesão.
Confirmar o diagnóstico importa, porque outras condições imitam a epicondilite, e nelas o PRP no tendão não resolve.
Tabela 2. Condições que podem ser confundidas com epicondilite lateral
| Condição | O que sugere | Por que importa |
|---|---|---|
| Síndrome do túnel radial | Dor mais distal no antebraço, piora com supinação resistida | Compressão nervosa: o tratamento é outro |
| Radiculopatia cervical (C6–C7) | Dor que desce do pescoço, formigamento, alteração de reflexos | A origem da dor está na coluna |
| Instabilidade posterolateral do cotovelo | Sensação de falseio, história de entorse ou múltiplas infiltrações | Pode exigir reconstrução ligamentar |
| Plica sinovial radiocapitelar | Estalido e dor articular, mais posterior | Problema intra-articular |
| Artrose ou lesão da cartilagem radiocapitelar | Sensação de falseio, história de entorse ou múltiplas infiltrações | Conduta diferente da tendinopatia |









